Interstella 5555: Cinema Japonês e a popularidade no Ocidente By Tati Cared

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Parcerias existem em todo o mundo artístico. Seja no cinema, na televisão ou na música, o público muitas vezes é surpreendido e agraciado com a presença de seus artistas favoritos dispostos a elaborar uma obra inédita em conjunto. Nos longas metragens há aqueles diretores que sempre trabalham com os mesmos roteiristas ou artistas, musicistas e cantores se reúnem pelas mais diversas razões: seja para ajudar a promover um ao outro, uma campanha publicitária ou ainda por admiração mútua de suas habilidades. No ramo da animação não é diferente. Desviando a atenção dos grandes estúdios americanos, países como Brasil, Japão, Canadá e outras nações europeias são conhecidos por unirem-se (produtoras e estúdios) na tentativa de criarem formas estéticas ou técnicas de produção e, além dessas, terem uma chance de alavancarem suas obras.

Quando, no entanto, o público depara-se com uma obra como a do título as barreiras entre cinema, televisão e música tornam-se esparsas. Não se sabe ao certo quando se origina a “parceria” entre música e animação, um breve estudo histórico permite reconhecer que essa junção se inicia no final da década de 20 graças aos Warner Brothers e a Walt Disney. Mas é apenas em 1981 que os chamados vídeo clipes chegam ao auge quando a Music TeleVision (conhecido popularmente como MTV) é criada nos estados unidos, permitindo maior proximidade do público com bandas e artistas musicais, com um bônus em produção técnica e visual que as rádios e shows não possuíam.

Qual a razão de citar a MTV? Em 2001, quatro clipes do álbum Discovery da dupla francesa Daft Punk são exibidos em tela, eles contêm as quatro primeiras partes de uma história que viria a ser completada em 2003 – Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem. O conjunto funcionou belissimamente como trabalho musical, como também animação e obra cinematográfica. Todo o álbum e suas 14 faixas compõem um filme de pouco mais de uma hora de duração. A história fora primeiramente imaginada pelos integrantes da banda durante as gravações das músicas sendo que, para tornar o filme realidade, Cédric Hervet – diretor criativo – levou o roteiro para a Toei Animation com esperanças (e admiração) de que Leiji Matsumoto o produzisse. O mangaká e produtor – famoso entre os anos 70 e 80 por animes como Patrulha Estelar e Capitão Harloc – não apenas aceitou o projeto, como convocou Kazuhisa Takenouchi para dirigir.

A história acompanha uma banda alienígena que, na noite de um grande show, tem seu planeta invadido por um grupo de humanoides e os quatro integrantes são sequestrados e levados em direção à Terra. Os membros têm suas identidades trocadas, as mentes apagadas e trabalham como escravos, sendo controlados por um empresário maligno, tocando e crescendo como celebridades. Durante esse tempo um vigilante de uma nave próxima ao planeta da banda é convocado em uma missão para resgatá-los e trazê-los de volta em segurança.

A premissa é simples e a história é construída em cima de um clima de aventura. As personagens – ainda que sem diálogos – são bastante cativantes e conduzem o expectador através da narrativa. O cenário “espacial” de Matsumoto é bastante característico, artístico e bonito, as cores e figuras intergalácticas relembram a moda dos anos 60 e 70, enquanto a terra tem representações variadas de alguns países, e os efeitos sonoros e as músicas completam a obra. Há também referências de diversas lendas da música e seus finais trágicos, como também a participação dos próprios Thomas e Guy (durante a cerimônia de premiação) e referências a jogos e personagens possivelmente históricos. As cenas na mansão durante a faixa Veridis Quo  se assemelham às artes de do jogo Castlevania (1986 – 2003), enquanto o próprio Earl de Darkwood se parece com os personagens C.A. Rotwang (Metrópolis – 1927) e Manfred von Karma (Phoenix Wright: Ace Attorney Justice for All – 2002). Outra análise desse vilão foi realizada nesse link realizando uma busca histórica de sua possível inspiração.

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Quanto aos temas, explicitamente o principal apontamento que o filme faz é em relação a música. Há duas vertentes contrastantes: a música como um elemento que une e salva versus como um objeto de cobiça e exagero. A indústria musical toma forma, ainda que ficcional e caricata, de um empresário opressivo e ganancioso que visa o lucro e a fama de seus clientes a qualquer custo, sendo capaz de atos atrozes como sequestro, coação e omissão da verdade. Fala-se também da mídia e como a mesma colabora na construção de uma imagem enaltecida dos artistas, tirando-lhes traços de humanidade, supervalorizando o produto ao invés do ser, forçando-os a comparecer a eventos ou cumprirem tarefas exaustivas.

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Por outro lado, a música é o que resgata as memórias dos quatro membros da banda e lhes dá esperança de retorno ao lar. Toda a problemática que eles tiveram de superar e essa expectativa é o que coloca, igualmente, os terráqueos em busca de uma solução para ajudar o grupo.

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Por fim, a obra foi elogiada pela crítica sendo uma excelente demonstração da capacidade colaborativa entre artistas de ramos diferentes para criar uma história coesa e envolvente. Um trabalho que inspirou outros grupos a utilizarem da animação como alternativa de produção, além de contribuírem para a popularidade estrondosa da dupla francesa no mundo e oferecer maior acesso ao público ocidental aos animês no início do milênio.

 

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Um comentário sobre “Interstella 5555: Cinema Japonês e a popularidade no Ocidente By Tati Cared”

  1. Muito boa a sua resenha. Em minha opinião o álbum discovery do Daft Punk sozinho funcionava muito bem, sendo original em suas composições através do resgate de samples de trabalhos de outros artistas. A adição da animação criou um novo significado, deixado a obra ainda mais bonita e significativa através da narrativa que foi criada. Essa adição gerou uma nova obra audiovisual belíssima e original.

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